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Sociedade secreta do sexo

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Número #1 - julho de 2011

Uma sociedade secreta com hierarquia, objetivos e punições bem definidos em que os integrantes não sabem muito além dos pseudônimos dos seus pares; um caso de sucesso de negócio, com avaliações que elevam a cotação dos produtos no mercado; uma rede social em que pessoas com os mesmos objetivos encontram diversão e anonimato. Tudo isso é o GPGuia, site em que os usuários, mediante cadastro, fazem avaliações dos serviços de prostitutas Brasil afora.

O sistema é simples: o interessado cria um nick, uma senha e está no GPGuia. O ‘GP’ do nome da página é uma abreviação para garotas de programa — somente uma das siglas e gírias utilizadas pelos membros — sem trocadilho, por favor — da página, que tem formato de fórum.

Lá dentro, as ‘salas’ são divididas por estado, fazendo com que o usuários encontre as avaliações de possíveis alvos de suas ligações telefônicas, além de relatos sobre casas de shows eróticos e dicas para fugir de problemas inerentes à atividade, como a possibilidade de assalto e de chantagens por parte das prostitutas.

Há nove anos no ar, o GPGuia tem 171.284 usuários cadastrados. Destes, pouco mais de 12 mil estão ativos — ou seja, escreveram algo nos últimos dois meses. Entre os outros, há os ‘chupins’ ou ‘sonegadores’, aqueles que têm registro no sistema, fazem uso do serviço, mas não fazem nenhuma avaliação, e os que simplesmente deixaram o fórum.

As análises sobre os programas são chamadas de TDs — abreviação para test-drive, como aqueles feitos nos carros. A regra principal para as avaliações é preencher um cabeçalho simples, em que se informa se a garota faz sexo oral sem camisinha, beija na boca e faz sexo anal. Daí pra frente, o usuário fica livre para relatar a sua experiência da maneira que quiser.

A falou com o usuário intitulado ‘Tratador de GP’. Com a epígrafe ‘o encontro é casual, o tratamento é especial, mas só vale quando a gata chega ao ápice’, as mensagens chegaram via MP, o sistema de conversa particular do fórum. Casado, com 42 anos, o forista afirmou que não faz mais ideia de com quantas garotas já saiu, somente que a primeira foi em 2001, numa festa de despedida de solteiro.

Veterano de 58 avaliações no site, ‘Tratador’ não se vê como um crítico de sexo, mas explica o que vale um ponto positivo ou negativo. “Tudo conta, na minha visão particular. Desde a hora em que você recebe o primeiro atendimento até a hora da despedida. Mas na sua grande maioria é apenas o sexo”, diz.

O usuário diz que uma crítica negativa não serve para depreciar o trabalho da garota, mas para auxiliar outros colegas na escolha de com quem sair — afinal, em média, um programa com as mulheres citadas no GPGuia custa R$ 150, fora outros custos, como o do motel. Mas o valor da saída pode chegar a até R$ 350, o que costuma ser rejeitado prontamente pelos cadastrados no site. “Geralmente a crítica negativa ajuda os participantes a identificar quem tem o melhor atendimento”, conta.

Mas, se existem cada vez menos barreiras para o sexo casual, por que pagar para transar? “Fetiche. Sensação de ter ‘aquela’ mulher especificamente, o sexo fácil e sem compromisso. Com uma acompanhante, não existe a preocupação do ‘depois'”, conta, explicando também que, com a garota de programa, pode fazer “o que não faço em casa”.

Quanto à proteção, o forista conta que, na penetração, não abre mão do preservativo. Para o recebimento do sexo oral, entretanto, a preocupação do ‘Tratador’ é a mesma da imensa maioria dos homens: quase nenhuma. “Oral rola sem em 90% dos casos”.

O usuário revela que a experiência ajuda a tornar a vida das prostitutas mais fáceis, alertando para, por exemplos, maníacos que elas podem encontrar. “Até porque quem sai com acompanhantes procura segurança e descrição. E sempre existe aquela com que o usuário sempre volta a sair”, afirma.

‘Tratador’ conta que não sabe até quando pretende continuar saindo com prostitutas. “Pergunta dificil. Já tentei deixar de lado… Não consegui. Consegui diminuir a frequência. Acho que nós, usuários, somos meio viciados”, brinca.

Segredos levados a sério

Um site que mexe com um tema tão delicado merece uma organização cuidadosa. ‘Le Teseu’ é um dos responsáveis por gerir todas as seções do site, que tem inclusive uma área internacional. Profissional liberal residente no Sul do país, o administrador afirma que começou ajudando no desenvolvimento de um software do fórum e acabou conquistado pelo tema.

O internauta de 33 anos não faz uso de serviços de prostituição e não ganha nada para dedicar as muitas horas por semana ao site. “A contrapartida é a gratificação da interação com pessoas de todo o país na discussão de um tema tão instigante e repleto de tabus, como, afinal, é a prostituição”, fala.

‘Le Teseu’ explica que o GPGuia é “um repositório de informação”, um “organizador do conteúdo” postado pelos usuários. Como instituição, o site tem políticas de conduta fiscalizadas o tempo inteiro por coadministradores e moderadores. O gestor do fórum explica que existem alguns perfis que são sumariamente rejeitados pela organização. “Exploradores da prostituição, cafetões, menores, pedófilos e clientes de prostituição que não entendem o fórum como ambiante sadio para troca de informações”, diz.

A fiscalização procura acabar também com os “carteiradores”, usuários que negociam análises positivas com as prostitutas em troca de benesses no programa — em geral descontos ou gratuidade. “Há uma série de anúncios por todo o fórum alertando sobre conduta de falsários, que, em troca de atendimento favorecido, prometem bons relatos no GPguia. Apuramos todas as denúncias trazidas por nossos usuários e publicamos nossas decisões”.

O administrador relata que não são comuns reclamações por parte de prostitutas após avaliações negativas. “Claro que as GPs criam nicks em nosso fórum e dentro das regras para a categoria de usuários dela nós permitimos e fomentamos a interação, sem que isso nos torne amigos ou inimigos delas”, fala.

O GPGuia usa de artifícios avançados da informática para encontrar histórias e usuários falsos. Segundo ‘Le Teseu’, inclusive, os organizadores às vezes se veem em meio às vaidades das prostitutas. “Eventualmente ocorre. Uma GP cria um nick falso (de forista) e posta relatos negativos para outra GP. Agimos mediante provocação da GP que teve um relato que não aceitou ou dos foristas que suspeitam da vercidade do conteúdo”, conta.

O internauta que se intitula ‘B1′, morador de Salvador e moderador da área dedicada à Bahia, explica que existe uma complexa rede de investigação para encontrar usuários falsos. “Para poder pensar em providências a respeito de fakes, precisamos de um conjunto de provas, que são obtidas através de tempo, constância e alguns auxílios. Geralmente, quem frauda e continua fraudando se expõe a vários erros. Aí entramos nós”.

Assim como o administrador do site, ‘B1′ não é um contumaz utilizador de serviços de prostituição. “Meus TDs existem, estão no meu perfil. Mas os posts são bastante velhos: atualmente saio raramente com GPs. O trabalho de moderador é uma diversão em um ambiente onde ainda conseguimos não ficar obsessivamente ‘politically correct'”, destaca.

Nem tudo é seriedade, porém. Os milhares de usuários usam suas experiências para decifrar estratégias de garotas para continuarem ‘novas’ no mercado. Não é difícil, por exemplo, encontrar tópicos para uma garota como a que hoje se diz ‘Bia’, mas, como diz o acréscimo feito pelos foristas, é “ex-Fernanda Martinez, Maria Eduarda, Fernanda, Mariana, Luna Maia”.

Há também áreas exclusivamente dedicadas a relatos curiosos, comentários engraçados sobre histórias contadas no fórum e gozações — já disse, sem trocadilhos — em geral. No ‘Consultório do Dr. Clinton’, por exemplo, o usuário que homenageia o ex-presidente norte-americano dá divertidos conselhos a foristas que se envolvem em situações complicadas, como, por exemplo, apaixonar-se por uma garota de programa.

‘B1′ revela que, como numa rede social, os usuários extrapolam os limites do virtual e passam a se conhecer pessoalmente, uma vez que têm interesses em comum. “Encontrei pessoas dos mais diferentes níveis culturais, sociais, econômicos… Alguns são meus amigos até hoje. O fórum não deixa de ser um suporte de agregação, virtual no começo e — para quem quiser — real no continuar das coisas”, fala.

Crédito da Foto: Mariele Góes

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Davi Carneiro é jornalista, formado na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). É repórter da revista Let’s Go Bahia e autor do livro Vou Sair Para Ver o Céu.

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